[Crítica] “Backrooms: Um Não-Lugar” é um filme de terror angustiante e desconfortável sobre os traumas que carregamos
Estrelado por Renate Reinsve (Valor Sentimental) e Chiwetel Ejiofor (O Menino Que Descobriu o Vento), “Backrooms: Um Não-Lugar” é o primeiro filme dirigido por Kane Parsons, um Youtuber de 20 anos que popularizou o fenômeno viral das Backrooms. Ele transformou o conceito original do labirinto dimensional surgido de uma creepypasta publicada anonimamente em um fórum 4chan em 2019, em um curta-metragem aos 16 anos.
Em fevereiro de 2023, o estúdio A24 anunciou oficialmente que estava desenvolvendo a adaptação da lenda urbana das Backrooms para o cinema, sob a direção do jovem cineasta que expandiu esse universo. Lançada três anos depois, a produção chega às telonas e as famosas salas amarelas vazias que já pareciam causar uma sensação assustadora e angustiante na internet ganha ainda mais profundidade, em um roteiro que transformar a arquitetura de um espaço aparentemente sem saída em um terror psicológico que reflete a manifestação física do estado mental de seus personagens.
O filme de Kane Parsons constrói uma narrativa impecável, capaz de capturar a tensão e o desconforto de estar preso em um labirinto cuja geografia parece ser seu maior inimigo, enquanto os personagens tentam escapar dos perigos que cercam o lugar e lidam com as próprias questões emocionais que este isolamento pode causar.
A trama de “Backrooms: Um Não-Lugar”
O roteiro conecta, de uma forma muito inteligente, um arquiteto, Clark (Chiwetel Ejiofor), que é dono de uma loja de imóveis e está frustrado com os rumos da sua vida, e uma psicóloga, Dra. Mary Kline (Renate Reinsve), que foi criada por uma mãe com transtornos mentais que a manteve trancada em casa, trauma que vemos se desenvolver durante o longa.
A história começa quando Clark descobre um portal dimensional no fundo da sua loja de imóveis, que o leva até um complexo de salas amarelas infinitas. Ao tentar mapear os caminhos desse labirinto, ele convida seus únicos dois funcionários para ajudá-lo. No entanto, as coisas fogem do controle, e eventos estranhos começam a acontecer dentro das Backrooms.
Os ambientes e a construção de estar vivendo um pesadelo
Assim como no conceito que surgiu na internet e foi explorado no curta de Kane Parsons, de 2022, as Backrooms são um conjunto de salas vazias que parecem não ter fim, por mais que se tente chegar a algum lugar, o que se encontra são apenas espaços sem sentido ou lógica. O que já causava uma sensação de claustrofobia e medo por se perder em um lugar liminar, aqui, essa geografia impossível de desafiar se torna também um ambiente perfeito para a construção de um pesadelo, onde são projetados fragmentos dos seus maiores medos.
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Protagonista Clark, interpretado por Chiwetel Ejiofor, dentro das Backrooms. (Foto: Reprodução/A24/Imagem filmes
Em um filme que explora memórias e traumas, a atmosfera do ambiente em que os personagens se encontram serve para aprisioná-los em seus próprios devaneios, enquanto tentam sobreviver às ameaças das Backrooms.
A distorção analógica como eixo central do terror
Muitas das cenas de “Backrooms: Um Não-Lugar” foram estilizadas para adotar uma estética de found footage, um efeito que simula gravações de fita cassete (VCR), criando uma distorção analógica, como se o material fosse antigo e estivesse desgastado, o que intensifica a tensão ao acompanhar a ação pelas lentes da câmera do personagem, como se estivéssemos vendo pelos seus olhos, gerando uma sensação de desconforto e uma ansiedade constante pela expectativa de um mal que pode surgir de qualquer ponto do labirinto.
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Funcionário Bobby, interpretado por Finn Bennett. (Foto: Reprodução/A24/Imagem filmes)
Trilha sonora como protagonista
Quando pensamos que o medo e a tensão causados ao telespectador se baseiam apenas na agonia de ver os protagonistas dentro das Backrooms, Parsons mostra com maestria que consegue evocar a sensação de perigo em qualquer elemento dessa cinematografia. A trilha sonora, produzida pelo próprio cineasta em parceria com o compositor Edo Van Breemen, nos coloca ainda mais dentro daqueles cenários e ajuda a dar um tom mais assustador à história, reforçando que os perigos enfrentados pelos personagens são reais.
O mistério das Backrooms e a falta de um desfecho
O filme de Kane Parsons certamente não procura se explicar demais nem dar todas as respostas sobre as Backrooms, e essa é uma ótima decisão, pois o mistério deixa a produção ainda mais assustadora. No entanto, alguns desfechos mereciam maior atenção, e esse é o único contraponto do filme, porque após acompanhar os personagens naquele universo e conhecer seus maiores anseios, é natural criar uma espécie de afeição. Ainda assim, o contexto se torna um pouco ambíguo, sem revelar uma parte crucial para quem acompanhou a história.
Um filme sobre um espaço sem janelas que nos obriga a sentir
O que fica perceptível durante a exibição de “Backrooms: Um Não-Lugar” é que ele não é um terror convencional. Um labirinto infinito de paredes amarelas, que apesar de não se moverem parecem se comprimir, se apresenta como uma representação psicológica da mente humana, de suas dores reprimidas e de seus medos. Serve para aprisionar aqueles que ergueram barreiras ao redor de seus traumas para se proteger, incapazes de encontrar uma saída por não conseguirem mais se conectar com o seu eu exterior.
No fim, Backrooms: Um Não-Lugar é um filme de terror angustiante e desconfortável sobre os traumas que carregamos, que nos obriga a sentir a claustrofobia das paredes que nos aprisionam.
Nota do Crítico
4,5/5
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